Ao longo do dia, a mente humana produz uma quantidade constante de pensamentos. Planejamentos, lembranças, julgamentos, preocupações e diálogos internos se sobrepõem, muitas vezes criando a sensação de uma verdadeira enxurrada mental.
Na perspectiva do Mindfulness, o problema não está no fato de pensarmos demais, mas na forma como nos relacionamos com esses pensamentos.
Pensamentos não são o inimigo
Mindfulness parte de um princípio fundamental: pensamentos são eventos mentais transitórios, não fatos absolutos nem ordens que precisam ser obedecidas. Eles surgem espontaneamente, permanecem por instantes e desaparecem.
O sofrimento psicológico tende a aparecer quando ocorre:
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Identificação automática com o pensamento
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Fusão cognitiva (“isso é verdade”, “isso sou eu”)
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Reatividade imediata
A prática começa quando reconhecemos, com clareza:
“Um pensamento está acontecendo.”
Esse simples reconhecimento já representa um deslocamento de consciência.
A habilidade central: observar sem engajar
Mindfulness treina a chamada posição do observador — um estado metacognitivo em que a mente percebe seus próprios conteúdos sem se perder neles.
No cotidiano, isso se expressa de forma prática:
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Pensamentos surgem
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Você percebe
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Não luta, não discute, não segue
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Retorna ao presente por meio de uma âncora
O retorno não é sinal de fracasso.
O retorno é a prática.
Âncoras conscientes no meio da rotina
A mente opera, por padrão, em modo automático. Mindfulness introduz pequenas pausas conscientes ao longo do dia.
Algumas âncoras simples:
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Dois ou três ciclos completos da respiração
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Sensação dos pés tocando o chão
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Contato das mãos
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Um som ambiente
Sempre que perceber a enxurrada de pensamentos:
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Reconheça: “pensamentos intensos”
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Traga atenção ao corpo por alguns segundos
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Retorne à ação presente
Nomear para não se fundir
Uma estratégia eficaz é a rotulagem gentil.
Exemplos:
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“Preocupação”
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“Planejamento”
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“Julgamento”
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“Lembrança”
Nomear não é analisar.
É reconhecer a natureza do pensamento, o que reduz sua força automática.
O que a neurociência aponta
Pesquisas em neurociência indicam que a prática regular de Mindfulness:
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Reduz a hiperativação da rede de modo padrão (associada à ruminação)
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Fortalece áreas pré-frontais ligadas à autorregulação
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Aumenta a consciência corporal como referência de estabilidade
Esses fundamentos foram sistematizados e popularizados por Jon Kabat-Zinn, ao integrar práticas contemplativas com ciência e saúde.
Um princípio essencial
Mindfulness não busca reduzir o número de pensamentos.
Busca reduzir o sofrimento gerado por eles.
Pensar é natural.
Ser arrastado por cada pensamento não é inevitável.
Quando você percebe a enxurrada, já existe espaço entre você e a mente.
Esse espaço é o início do equilíbrio.
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