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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Aceitação no Mindfulness: da Resistência Automática à Liberdade de Escolha

 



No cotidiano, somos constantemente confrontados com situações desconfortáveis: emoções difíceis, frustrações, limitações e eventos fora do nosso controle. Diante disso, é comum reagirmos automaticamente, tentando evitar, controlar ou resistir à experiência. No entanto, a prática de mindfulness propõe um caminho distinto e profundamente transformador: a aceitação.

Este artigo explora o conceito de aceitação no mindfulness, diferenciando-o de resignação e passividade, e mostrando como ela se torna a base para escolhas mais conscientes, regulação emocional e mudança genuína.


Aceitação, resignação e respostas automáticas

Quando uma situação desafiadora surge, emoções e reações corporais aparecem rapidamente. Muitas vezes, somos capturados por respostas automáticas: lutar contra a experiência, fugir dela ou nos sentirmos vítimas das circunstâncias. Esse funcionamento é natural do ponto de vista neurobiológico, pois está ligado ao sistema de ameaça, responsável por nossa sobrevivência.

A aceitação, no entanto, não significa concordar com a situação, aprová-la ou desistir de agir. Ela consiste em reconhecer a experiência tal como ela é, no momento presente, sem acrescentar camadas de julgamento, resistência ou negação.

Aceitar é dizer internamente: “é isso que está acontecendo agora”.





O sofrimento primário e o sofrimento secundário

Um ponto central no mindfulness é a distinção entre dois níveis de sofrimento:

  • Sofrimento primário: a dor inevitável da experiência (frio, tristeza, ansiedade, perda).

  • Sofrimento secundário: o sofrimento adicional criado pela mente ao resistir, julgar ou ruminar sobre a experiência.

Quando resistimos ao que já está presente, não eliminamos o sofrimento primário — apenas amplificamos o secundário. A aceitação interrompe esse ciclo ao reduzir o atrito interno.





Aceitar onde estamos, não onde gostaríamos de estar

Uma das ideias mais poderosas do mindfulness é a noção de que a mudança só pode ocorrer a partir do contato com a realidade atual.

Agir a partir de onde gostaríamos de estar geralmente envolve negação, cobrança excessiva e idealizações. Já agir a partir de onde estamos permite escolhas mais realistas, funcionais e alinhadas com nossos valores.

Ao aceitar plenamente a experiência presente, criamos o espaço interno necessário para perceber as opções reais disponíveis — e não apenas reagir automaticamente.

Paradoxalmente, é exatamente a aceitação que nos devolve a capacidade de mudança.





Aceitação como base da ação consciente

Aceitação não é imobilidade. Pelo contrário: ela libera energia para a ação adequada.

Um exemplo simples ilustra esse ponto:

Está frio.

Resistência: reclamar, julgar o clima, desejar que fosse diferente.

Aceitação: reconhecer o frio e colocar um casaco.

A realidade não muda, mas a relação com ela muda. A ação passa a ser prática, consciente e eficaz.

O mesmo se aplica às experiências internas. Ao reconhecer a presença de ansiedade, tristeza ou desconforto durante a meditação ou na vida cotidiana, podemos ajustar postura, respiração, atitudes e escolhas — em vez de lutar contra o que já está acontecendo.





Aceitação, neurociência e regulação emocional

Do ponto de vista da neurociência afetiva e cognitiva, a aceitação não é apenas uma atitude filosófica, mas um processo neuropsicológico mensurável, associado à regulação emocional e à diminuição do sofrimento.

Quando resistimos à experiência — tentando suprimi-la, evitá-la ou julgá-la — há uma tendência de hiperativação do sistema de ameaça, envolvendo estruturas como a amígdala, a ínsula anterior e circuitos ligados ao eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA). Esse padrão sustenta estados de alerta, ruminação e reatividade automática.

A prática de aceitação consciente, por outro lado, favorece:

  • Redução da reatividade da amígdala, especialmente frente a estímulos emocionais negativos

  • Maior recrutamento do córtex pré-frontal medial e dorsolateral, áreas associadas à metacognição, autorregulação e escolha consciente

  • Integração entre córtex pré-frontal e sistema límbico, permitindo que emoções sejam sentidas sem dominar o comportamento

Estudos em neuroimagem mostram que praticantes de mindfulness apresentam maior capacidade de observar emoções sem se fundir a elas, um fenômeno descrito como descentramento. Esse processo não elimina a emoção, mas altera a forma como o cérebro se relaciona com ela.

Além disso, a aceitação está relacionada à ativação de circuitos ligados ao sistema afiliativo, associado à sensação de segurança, cuidado e vínculo. Esse sistema, mediado por neuroquímicos como a oxitocina, atua como um regulador natural do estresse e da ameaça.

Assim, aceitar a experiência presente não significa "se entregar" ao desconforto, mas criar as condições neurobiológicas necessárias para responder de forma mais flexível, consciente e compassiva. É nesse estado que surgem clareza, discernimento e capacidade real de mudança.


A sabedoria do discernimento

A conhecida Oração da Serenidade, atribuída a Reinhold Niebuhr, sintetiza de forma precisa o espírito do mindfulness:

“Que eu tenha serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar;
coragem para mudar as que posso,
e sabedoria para saber a diferença.”

Mindfulness treina exatamente essa sabedoria prática: reconhecer o que pode ser aceito, o que pode ser transformado e qual atitude é possível neste momento.





🧠 Box explicativo — Mindfulness e o cérebro

O que acontece no cérebro quando praticamos aceitação consciente?

A prática de mindfulness, especialmente quando envolve aceitação da experiência presente, produz mudanças funcionais em circuitos cerebrais relacionados à emoção, atenção e autorregulação. De forma resumida:

  • Amígdala: há redução da reatividade emocional diante de estímulos negativos. A emoção continua sendo percebida, mas com menor intensidade e menor tendência à reação impulsiva.

  • Córtex pré-frontal (medial e dorsolateral): ocorre maior ativação dessas regiões, responsáveis por metacognição, planejamento, tomada de decisão e regulação emocional. Isso favorece respostas mais conscientes em vez de automáticas.

  • Ínsula: aumento da consciência interoceptiva — a capacidade de perceber sensações corporais associadas às emoções, sem julgamento. Esse contato direto com o corpo é central na prática de mindfulness.

  • Conectividade pré-frontal–límbica: mindfulness fortalece a comunicação entre áreas racionais e emocionais do cérebro, permitindo sentir emoções sem ser dominado por elas.

  • Sistema afiliativo: práticas de aceitação e autocompaixão ativam circuitos associados à segurança, cuidado e vínculo, mediados por neuroquímicos como a oxitocina, reduzindo o impacto do estresse crônico.

Em conjunto, essas mudanças criam as condições neurais para aquilo que o mindfulness propõe na prática: menos reatividade, mais clareza e maior liberdade de escolha diante da experiência.







Conclusão

Aceitar não é desistir, nem se conformar. É abandonar a luta contra o fato de que a experiência já está acontecendo. A partir desse reconhecimento lúcido, abrimos espaço para respostas mais conscientes, cuidadosas e alinhadas com nossos valores.

A verdadeira transformação não começa com o controle, mas com o contato. Não com a negação, mas com a presença.

Aceitar é o primeiro passo para mudar — de dentro para fora.







Referências bibliográficas

  • Kabat-Zinn, J. (1994). Wherever You Go, There You Are. Hyperion.

  • Kabat-Zinn, J. (2013). Full Catastrophe Living. Bantam.

  • Segal, Z. V., Williams, J. M. G., & Teasdale, J. D. (2013). Mindfulness-Based Cognitive Therapy for Depression. Guilford Press.

  • Bishop, S. R. et al. (2004). Mindfulness: A proposed operational definition. Clinical Psychology: Science and Practice, 11(3), 230–241.

  • Garland, E. L., Farb, N. A., Goldin, P. R., & Fredrickson, B. L. (2015). Mindfulness broadens awareness and builds eudaimonic meaning. Psychological Inquiry, 26(4), 293–314.

  • Niebuhr, R. (1951). The Serenity Prayer.

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