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sábado, 23 de agosto de 2014

Para observar é preciso meditar?

Observar é meditação, e isso não significa que para observar temos de meditar.

 Observar é uma das coisas mais difíceis que há.

 Observar, por exemplo, uma árvore, é dificílimo, porque temos ideias, imagens relativas à arvore e essas ideias — conhecimentos botânicos, etc. — nos impedem e olhar a árvore.

 Observar sua esposa ou marido é mais difícil ainda, porque você também tem uma imagem relativa de sua esposa e ela tem uma imagem a seu respeito, e a relação existente é entre essas duas imagens.

 É o que em geral se chama "relações": dois conjuntos de lembranças, de imagens, em relação entre si.

 Veja quanto isso é absurdo. As relações que em geral temos são uma coisa morta. Observar significa, com efeito, estar consciente da interferência do pensamento; perceber como a imagem que você tem da árvore, da pessoa, do que quer que seja, intervém no ato de olhar.

 Observe como você se esquece do objeto que está olhando — a árvore, a pessoa; e veja porque o pensamento interfere, porque você tem uma imagem de tal pessoa. 

Por que você tem uma imagem de quem quer que seja?

 Aqui estamos, você e eu, a nos olhar — eu, o orador, e você, o ouvinte.

 Você tem uma imagem relativa do orador, infelizmente; mas eu, não lhe conheço, nenhuma imagem tenho de você e, por conseguinte, posso olhá-lo.

 Mas não posso olhá-lo se digo para mim: Vou servir-me desse ouvinte para alcançar poder, posição, explorá-lo, tornar-me um homem famoso — você sabe o resto — de todas as futilidades que os entes humanos cultivam. 

Assim, observar significa: observar sem a interferência de nosso fundo. Entende?
 Todo o nosso ser, que está a olhar, é o nosso fundo — cristão, francês, intelectual. 

Pela observação, descobre-se esse fundo; e observá-lo sem nenhuma escolha, nenhuma inclinação, é uma disciplina tremenda — não a absurda disciplina de ajustamento, de imitação.

 Essa observação torna a mente sobremodo ativa, sobremodo sensível. Isso em seu todo é meditação. 

Não se entenda, pois, que "para observar é preciso meditar", porém, antes, que é quando observamos, que todas as coisas sucedem. Isso, em seu todo, é meditação, e não um certo método de controle do pensamento, assunto que trataremos noutra ocasião.