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sábado, 22 de outubro de 2011

SOBRE SOLIDÃO 2

NÃO É MUITO estranho que, num mundo como este, com tantas distrações e entretenimentos, quase todos sejam só expectadores e muito poucos os atuantes? Sempre que temos algum tempo livre, buscamos alguma espécie de distração. Apanhamos um livro sério, um romance, uma revista. Se estamos na América, ligamos o rádio ou a televisão, ou nos comprazemos em intermináveis conversas. Há o constante desejo de nos divertirmos, nos entretermos, fugirmos de nós mesmos. Temos medo de estar sós, desacompanhados, privados de distrações. Mui poucos dentre nós saímos a passear no campo ou na floresta — não conversando nem cantando cantigas, porém andando tranqüilamente e observando as coisas em torno e dentro de nós. Quase nunca fazemos isso, porque quase todos vivemos sumamente entediados; vemo-nos colhidos numa estúpida rotina de aprender e ensinar, de deveres domésticos e profissionais e, por isso, em nossas horas de folga queremos distrair-nos, fútil ou seriamente. Tratamos de ler alguma coisa, de ir ao cinema; ou, o que é a mesma coisa, recorremos a uma religião. A religião se tornou também uma forma de distração, uma espécie de fuga “séria”, ao tédio, à rotina. Não sei se já notastes estas coisas. A maioria das pessoas está constantemente ocupada com alguma coisa — puja, recitação de certas palavras, preocupações a respeito disto ou daquilo - porque todos têm medo de estar a sós consigo mesmos. Experimentai estar sós, sem distração alguma, para verdes como logo desejais fugir de vós mesmo e esquecer o que sois. Eis a razão por que essa enorme estrutura de diversão comercializada, de distração automatizada, se tornou parte tão relevante dessa coisa que chamamos civilização. Se observardes, vereis que no mundo inteiro as pessoas se estão tornando cada vez mais distraídas, cada vez mais afetadas e mundanas. A multiplicidade de prazeres, os inumeráveis livros que se vão publicando, as páginas dos jornais cheias de notícias esportivas — não há dúvida que tudo isso indica que estamos constantemente necessitados de distrações. Por que interiormente somos vazios, embotados, medíocres, servimo-nos de nossas relações e de nossas reformas sociais como meios de fugirmos a nós mesmos. Não sei se já notastes a grande solidão em que vive a maioria das pessoas. E, fugindo à solidão, corremos para os templos, as igrejas, as mesquitas, vestimo-nos a rigor para assistir a solenidades sociais, vemos televisão, ouvimos rádio, lemos etc, etc. Sabeis o que significa solidão? Esta palavra poderá ser pouco familiar a alguns de vós, mas conheceis muito bem o sentimento. Experimentai sair sozinho a passeio, ou estar sem um livro, sem alguém com quem conversar, para verdes com que rapidez ficais entediado. Conheceis suficientemente esse sentimento, mas não sabeis por que vos entediais, pois nunca investigastes isso. Se investigardes um pouco o sentimento de tédio, descobrireis que sua causa é a solidão. É para fugirmos à solidão que procuramos andar juntos, que desejamos entretenimentos, distrações de todo gênero: gurus, cerimônias religiosas, rezas, ou os romances mais recentes. Vendo-nos interiormente sós, tornamo-nos na vida meros espectadores; e só seremos “os atuantes” quando compreendermos a solidão e a transcendermos. Afinal de contas, a maioria das pessoas se casam e procuram outras relações sociais porque não sabem viver sós. Não estou dizendo que se deva viver só; mas, se uma pessoa se casa porque deseja ser amada — ou, sentindo-se entediada, se serve do trabalho como meio de esquecimento próprio — verá como sua vida inteira nada mais é que uma interminável busca de distrações. São muito poucos os que transcendem esse extraordinário medo à solidão; mas é preciso transcendê-lo, porque é além que se encontra o verdadeiro tesouro. Deveis saber que há uma vasta diferença entre solidão e “estar só”. Alguns dos alunos mais novos ainda devem desconhecer a solidão, mas os mais velhos a conhecem: o sentimento de completo isolamento, de medo súbito sem causa aparente. A mente conhece esse medo quando, em dado momento, compreende que em nada pode confiar, que nenhuma espécie de distração poderá tirar-lhe aquele sentimento de vazio e de enclausuramento em si própria. Isso é solidão. Mas “estar só” é coisa toda diferente; é um estado de liberdade, que surge depois de termos passado pela solidão e a termos compreendido. Nesse “estar só”, de ninguém dependemos psicologicamente, porque já não buscamos o prazer, o conforto, a satisfação. É só então que a mente está completamente só, e só essa mente é criadora. Tudo isso faz parte da educação: enfrentar a dor da solidão, aquele extraordinário sentimento de vazio que todos conhecemos e, quando ele se apresenta, não ter medo, não ligar o rádio, não correr para o cinema, porém enfrentá-lo, penetrá-lo, compreendê-lo. Não há ente humano que não tenha sentido ou não venha a sentir essa tremenda ansiedade. É porque, toda vez que essa ansiedade se apresenta, tratamos de fugir por meio de distrações e satisfações de todo gênero — sexo, Deus, trabalho, bebida, escrever poesias ou recitar certas palavras aprendidas de cor — que nunca chegamos a compreendê-la. Assim, quando a dor da solidão vos assaltar, enfrentai-a, olhai-a, sem nenhuma idéia de fuga. Se fugirdes, jamais a compreendereis e ela estará sempre à vossa espera, em cada volta do caminho. Mas, se puderdes compreender e transcender a solidão, vereis que não haverá nenhuma necessidade de fugir, nenhuma ânsia de satisfação ou entretenimento, porque vossa mente conhecerá então uma riqueza incorruptível e indestrutível. Tudo isso faz parte da educação. Se, na escola, só estudais certas matérias para passardes nos exames, então o próprio estudo se torna um meio de fuga à solidão. Refleti um pouco nisso, e vereis. Conversai sobre o assunto com os vossos educadores, e logo vereis quanto estais só, e quanto eles também estão sós. Mas, os que estão interiormente sós, aqueles cuja mente e cujo coração estão livres da dor da solidão — esses é que são indivíduos reais, porque são capazes de descobrir por si próprios o que é a Realidade, e de receber o Atemporal. Krishnamurti – A Cultura e o Problema Humano - Cultrix